31 de maio de 2020 - 02:05

Cultura

Cinquenta Tons de Conto - Por Luiz Renato Pinto

Há um lugar literário – árvores, frutos, riachos, aragens, montes, campos, ravinas – a que o escritor recorre quando lhe furtam as horas do seu dia. Lá o sol está sempre no zênite. Não há tempestades nem sismos.

Lá vivem as personagens do escritor em eterna disponibilidade.

Vive lá também seu desejo.

Lá vivem seus livros ainda não-escritos, suas metáforas sem uso, seus viçosos períodos gramaticais, seu léxico mais raro.

Somente lá.

(BRASIL, Luis Antonio de Assis, 2008, p. 74)

Fico a imaginar, nestes tempos de quarentena, o quanto a rotina está alterada, o que de forma alguma seria inanição, mas uma visão diagnóstica de como temos nos utilizado do tempo aqui no planeta. Para mim, voltar os olhos para os livros não é fuga, preenchimento do tempo, e sim, prolongamento. Por conta dessa nova realidade, me pego a imaginar coisas e saco da estante “Algazarra”, de Santiago Santos, adormecido há um ano e meio desde o lançamento aqui em Cuiabá, com a presença de seu editor, Eduardo Lacerda. Santiago é desses escritores empolgados com a ficção científica, com narrativas curtas que impregnam o leitor de subjetividades.

Talvez meu leitor neste momento associe ficção científica a alienígenas, naves espaciais e coisas do gênero, como eu o fazia até bem pouco tempo. Nunca a vírus intergalácticos que contaminem a população e causem verdadeiro alvoroço. Para que esses elementos (sejam quais forem) constitutivos das narrativas obtenham vida aos olhos do leitor, é preciso que haja o que se convencionou chamar de verossimilhança, cujo uso “tem por foco o imaginário do espectador. As balizas para isso são fornecidas a você pelo acervo das formas e conteúdos narrativos dos seus espectadores. Por exemplo, para muitos brasileiros, estórias de ficção científica são improváveis, inverossímeis (...), coisa de matuto” (CAMPOS, 2016, p. 28).

Santiago compila cinquenta de seus “drops literários” na publicação, veiculados inicialmente pela internet, o que por si só impele o ritmo contemporâneo de publicações do gênero. Quando me refiro ao termo contemporâneo e o associo a narrativas curtas, é inegável que o faça relacionando com um histórico mais recente desse tipo de narrativa. E genealogicamente o associo ao clássico, sem o qual não haveria continuidade, nem mesmo ruptura. “Estou falando do conto contemporâneo, digamos o que nasce com Edgar Allan Poe, e que se propõe como uma máquina infalível destinada a cumprir sua missão narrativa com a máxima economia de meios” (CORTÁZAR, 2017, p. 228).

Dentre os textos que mais me agradaram destaco os de número 11, 16, 20, 21, 24 e o 50. Em “Da mortífera arte das escolhas”, a relação entre cobiça e ruína sustenta a tensão interna da trama e me parece extremamente necessária a reflexão proposta pelo narrador. “Raiane” propõe uma visão gradativa de uma patologia grave a que se submete a protagonista e seu duplo. Neste caso, caracterizado como “uma parte não apreendida pela imagem de si que tem o eu, ou por ela excluída; daí seu caráter de proximidade e de antagonismo. Trata-se das duas faces complementares do mesmo ser” (BRAVO, 2005, p. 263).

“Da poesia do óbito”, por sua vez, propõe um mergulho no momento pelo qual passamos, pois “É como gripe mal curada, que volta e maia aparece numa tosse seca, numa coriza teimosa, num latejo na garganta. Não lembro como começou. Nem quando” (SANTOS, 2018, p.92). Impressionante como de maneira econômica, sem muito detalhamento, o conto nos propõe essa viagem interior pelo que tem de trágico. “Eu, meus filhos e o teto branco” (idem, p. 92). Parece que estamos em um corredor de hospital em plena pandemia. E muitos dos personagens reais em monólogos profundos; pareço ouvir. “... agonizo ouvindo o borbulhar do respirador, quieto e parado para evitar escapar das pontas da coberta da vida (...). Passo a mão nos seus cabelos, largo o respirador sobre o peito, canto baixinho... (idem, p. 93).

“Tia Jerusa” vem carregada de pequenos aforismos, frases curtas aglomeradas que seriam micro contos pela unidade narrativa que apresentam: “Carro não era um maquinário com motor hidráulico e várias pecinhas em funcionamento, era um parente distante do boi que usava armadura”.  E outro: “Árvore era velho que cansava de viver e ficava mais de um ano sem abrir a boca”. Emendado aos anteriores a máxima que dá conta que “Televisão era um caixote que recebia pelo fio da tomada um monte de pessoas do tamanho de bactérias que pintavam na tela as imagens”. E por fim, complementando o parágrafo: “Catarro era coisa ruim que a gente tinha pra dizer e não dizia e acumulava e saía pelo nariz limpando a gente por dentro” (idem, p. 97).

“Apartamento 221, ainda o mesmo” apresenta a figura do ex-marido que aparece oito anos depois e é recebido por quem foi abandonada e lhe oferece um café. Não há nada de especial nessa construção, a não ser pelo “conforto da parede que rasga o olho um do outro” (idem, p. 108). Mas é a revelação de que pai e filho tornam-se cúmplices pelo mesmo crime que joga para o final o conto que fecha o livro, intitulado “BangBang”.

Não se faz justiça com as próprias mãos, a lei nos ensina esse difícil aprendizado. Por isso não cabe juízo de valor acerca da produção literária de ninguém. Exercito isso em meus escritos atribuindo às leituras um mero “gosto”. Percebo que o universo das narrativas de Santiago Santos incorpora elementos de sua visão interior mesclados com a observação do meio aquoso em que se vive. Fecho com as sábias palavras do escritor e crítico Cristovão Tezza que, sabiamente, conclui que:

 

A eventual incidência de obras autocentradas na figura do escritor seria reflexo da gigantesca revolução cultural deflagrada pelo advento da internet e do império da comunicação digital, que afeta não apenas a literatura, mas todo o sistema de representação e exposição pessoal num tempo em que a mínima sombra de hierarquia valorativa já soa como sinônimo de repressão ou preconceito. Assim, procuradores da República com páginas no Facebook, juízes expondo fotos pessoais e jovens escritores escancarando a própria vida em público seriam faces de um mesmo fenômeno de cultura coletiva, de uma nova geração já formada sob o império digital, e não uma exclusividade do sempre restrito mundo das letras (TEZZA, 2018, P. 131).

 

REFERÊNCIAS

BRASIL, Luis Antonio de Assis. ensaios íntimos e imperfeitos. Porto Alegre: L, P & M, 2008.

BREVO, Nicole Fernandez. In: Dicionário de Mitos Literários. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

CAMPOS, Flavio de. Roteiro de cinema e televisão. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2016. 

CORTÁZAR, Julio. Valise de Cronópio. 2. ed. 3. reimpressão. São Paulo: Perspectiva, 2017.

SANTOS, Santiago. Algazarra. São Paulo: Patuá, 2018.

TEZZA, Cristóvão. Literatura à margem. Porto Alegre: Dublinense, 2018.

 


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